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Vagão de trem só para mulheres… Banheiro feminino para homens…

A atriz Cássia Kis não gostou de dividir o banheiro de um shopping com um homem, e protestou com razão.

Nos últimos dias de abril, uma das mais importantes atrizes da televisão e do cinema no Brasil passou por um episódio bizarro. A confusão foi filmada, e o vídeo circulou pelas redes sociais. Cássia Kis estava no banheiro de um shopping center na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio de Janeiro. De repente, percebeu que no mesmo recinto encontrava-se um homem maquiado e com trajes femininos. A atriz, sentindo-se incomodada, teria manifestado verbalmente que tratava-se de situação ultrajante, uma vez que aquele era um ambiente reservado às mulheres.

O homem, que prefere se apresentar como Roberta Santana e diz ser uma “mulher trans”, tem 25 anos. O rapaz trabalha como auxiliar de restaurante no shopping. Ao perceber que a mulher indignada era uma famosa atriz, tratou de ligar a câmera do celular e passou a gravar toda a situação, descrevendo o ocorrido, enquanto filmava também as outras mulheres que estavam no banheiro… Postadas nas mais conhecidas redes sociais, as imagens mostram o homem literalmente falando grosso e em tom ameaçador, afirmando ter sido vítima de comentários “transfóbicos” feitos pela atriz.

Cássia Kis é hoje uma senhora de 68 anos. Muitos diriam que, num mundo perfeito, ou normal, ela teria todo o direito de se incomodar em dividir o banheiro com um homem, ainda que ele insistisse em dizer que “se sente mulher”. Mas não vivemos num mundo perfeito. Cássia se incomodou e expressou sua indignação diante da situação vexatória. Resultado: foi acusada de injúria por preconceito motivada por transfobia. A denúncia foi registrada na Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância). Caso seja condenada, pode pegar até quatro anos de cadeia.

O tal vídeo feito no banheiro viralizou rapidamente na internet. Na mesma velocidade, milhares de usuários começaram a postar mensagens de apoio a Cássia Kis. Outros tantos a criticaram. Aqueles que se colocaram ao lado da atriz lembraram que Cássia há muito tempo é uma militante das causas femininas e sempre esteve presente aos debates sobre as conquistas das mulheres. Foi publicado, inclusive, um corajoso vídeo da atriz, ainda nos anos de 1980, em que ela cobria os seios somente com as mãos numa impactante campanha pelo combate ao câncer de mama.

A repercussão logo alcançou o universo político. Erika Hilton, deputada do Psol-SP, defendeu o direito das pessoas trans. “Desde quando o direito de determinada população de fazer um xixi em paz é um debate nacional? Essa não é uma preocupação real do povo brasileiro. Mas como a extrema direita é incapaz de atender às preocupações reais, precisam inventar problemas para oferecer soluções.”

De fato, como Erika Hilton também faz xixi em pé, esse assunto realmente não deveria causar debate nacional. Já o senador Jorge Seif Júnior publicou em suas redes: “O episódio envolvendo Cássia Kis levanta uma discussão maior: até onde opiniões e posicionamentos podem ser tratados como perseguição ou silenciamento?”. De acordo com o parlamentar, ele mesmo apresentou no Senado Federal o PL 1.735/2025, reforçando uma luta incansável em defesa das mulheres, da proteção dos espaços femininos e do respeito ao que considera direitos fundamentais.

Um pouco de história sobre mulheres e banheiros

Todos sabemos que a luta das mulheres na conquista de seus direitos é um tema discutido praticamente todos os dias. O que muitos desconhecem, ou fazem questão de esquecer, é que muitas dessas conquistas enfrentaram uma jornada de luta que durou séculos. Pode parecer incrível, mas até o fim do século XIX não existiam banheiros femininos. Pois é, elas tinham de se virar da forma que quisessem ou pudessem. Somente no século XX, com o crescente aumento do número de mulheres tanto em espaços públicos e principalmente no mercado de trabalho, a criação de sanitários exclusivos para mulheres tornou-se uma realidade imediata.

O caro leitor provavelmente deve ter assistido a “Estrelas Além do Tempo” (2016), estrelado por Kevin Costner, Taraji P. Henson e Octavia Spencer, que descreve a história das primeiras mulheres, e negras, trabalhando como matemáticas nas operações espaciais da NASA. Há no filme uma sequência muito simbólica, mas também perturbadora. A personagem Katherine G. Johnson, interpretada por Taraji P. Henson, volta à sala de trabalho após um longo período de ausência. Seu chefe, Al Harrison (Kevin Costner), logo chama a atenção da moça. Ela conta que estava no banheiro, mas o chefe não se conforma com a demora de mais de 40 minutos. Indignada, a moça é obrigada a fazer um forte discurso para explicar que o único banheiro disponível para mulheres, ainda mais negras, estava fora de seu alcance, a muitos minutos de distância.

A história contada em “Estrelas Além do Tempo” é baseada em fatos e se passa no ano de 1961. É estarrecedor imaginar que uma mulher tenha sido colocada em situação tão constrangedora há 65 anos. Alguém aí disse: Ah, mas isso foi há muito tempo… Ok, então vamos falar de pouco tempo. Você sabe dizer quando, no Brasil, foi instalado um banheiro feminino no Plenário do Senado Federal? Em 2016! Mas para a Erika Hilton “essa não é uma preocupação real do povo brasileiro”.

Apenas um depoimento

Acompanho a carreira de Cássia Kis desde os anos 1980, quando ela começou a despontar na TV, no auge de sua juventude e beleza. Cássia rapidamente tornou-se símbolo sexual, mas também provou seu talento. Em algum momento dos anos 2000, conheci a Cássia em Gramado, durante o Festival de Cinema. Ela já não era mais aquela jovenzinha, mas continuava linda e respeitada como atriz.

É claro que eu queria me aproximar. E lá fui eu! “Oi, Cássia, tudo bem? Sou jornalista, meu nome é Marcos Petrucelli”. E, então, eu quase caí de costas. “Não acredito!”, disse ela. “Petru, eu era louca para te conhecer. Escuto você todos os dias na CBN. Sou sua fã!”. Sim, a Cássia Kis. Minha fã! Ela me abraçou, me beijou e dali em diante, durante todo o festival, conversávamos praticamente todos os dias.

Precisava concluir esse artigo contando essa história apenas para registrar que Cássia Kis é uma das artistas mais adoráveis, simpáticas e educadas que tive o prazer de conhecer. E uma mulher que, assim como muitas outras, tem o direito de se manifestar, de opinar, de expressar seu descontentamento diante de situações que a colocam em posição de desconforto e insegurança. Porém, repito: infelizmente, não vivemos num mundo perfeito. E parte desse mundo se voltou contra essa e tantas outras mulheres. Todas as conquistas femininas estão sendo jogadas no lixo. Pior: de vítimas, passaram a ser consideradas criminosas.

Há poucos dias, Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), proferiu comentários explicitamente homofóbicos contra o ex-governador mineiro Romeu Zema, pré-candidato a presidente da República. É sempre bom lembrar: no Brasil, homofobia e transfobia são equiparados ao crime de racismo (Lei 7.716/1989). São, portanto, inafiançáveis e imprescritíveis. A pena pode variar de 1 a 3 anos de reclusão e multa; e, caso ato seja cometido em meios de comunicação, como redes sociais, a pena pode ser aumentada para 2 a 5 anos de reclusão. Ocorre que Gilmar Mendes falou à imprensa, disse que não quis ofender ninguém, pediu desculpas, e ficou por isso mesmo.

Sendo assim, e antes que possam me acusar de “transfóbico” por defender uma mulher como Cássia Kis, já me adianto. Desculpa qualquer coisa!

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