Em homenagem aos 79 anos do filósofo, cronista recorda o impacto de Olavo de Carvalho na cultura brasileira e como sua obra resgatou a inteligência e a fé de uma geração.
Hoje Olavo de Carvalho faria 79 anos. Lembro-me claramente da manhã em que recebi a notícia: uma das primeiras pessoas que me ligaram foi Luís Ernesto Lacombe, amigo e mestre de jornalismo, hoje meu colega diretor d’O Cruzeiro. Olavo gostava muito do Lacombe, e Lacombe sabia o quanto Olavo representava para mim. Com seu jeito de lorde inglês, Lacombe perguntou delicadamente se eu conseguiria entrar ao vivo na TV para falar sobre a morte do professor. Respondi com sinceridade:
“Meu amigo, me desculpe, mas acho que não dou conta”.
No entanto, eu precisava escrever sobre o Olavo naquela manhã. Ele era como um segundo pai para mim, suas aulas e seus livros me fizeram voltar para Deus e restauraram em meu coração o amor à verdade, fazendo-me ver que o cultivo da inteligência é um dever moral do escritor.
Ainda sem forças para me levantar e caminhar até a mesa de trabalho, lembrei-me da primeira vez em que me deparei com os artigos do Olavo, em 1998, quando era diretor sindical e comecei a ler seus escritos de maneira clandestina, na sede do sindicato. Sim, na época era quase um crime ler Olavo; era algo que você fazia escondido, principalmente em alguns meios.
Depois eu me lembrei do dia em que encontrei Olavo pessoalmente pela primeira vez, em sua casa na Virgínia, em junho de 2013. Então aquele senhor baixinho e simpático era o autor que modificara a vida de tantas pessoas, cujas palavras ajudaram a despertar um país inteiro para a realidade? Então aquele senhor de camisa quadriculada era o Sócrates brasileiro? Sim, era.
E pensei no dia em que abri “O Jardim das Aflições” e li, fascinado, a descrição do gigantesco drama do pensamento e da civilização, marcado pelo embate entre Cristo e César, entre a Cidade de Deus e a Cidade do Homem. A obra-prima de Olavo começou numa noite de 1990, quando ele ouviu a palestra de um professor da USP que colocava o patético Epicuro à frente dos gigantes Platão e Aristóteles como grande precursor da “ética” moderna. Ora, comparar Epicuro aos dois continuadores de Sócrates é como dizer que a obra de Anitta é similar em importância às sinfonias de Beethoven. Olavo, naquela noite, ficou tão furioso que escreveu as primeiras 100 páginas do “Jardim” de um fôlego só, adentrando a madrugada.
Certa noite, fui até a cozinha da casa do Olavo e vi, grudada com um ímã na porta da geladeira, uma caricatura que misturava o comediante Mussum com o filósofo René Descartes. Só vim a entender o significado daquela imagem quando Olavo escreveu:
“Minha esperança é que os meus alunos, com o tempo, consolidem um genuíno estilo brasileiro de alta cultura: inseparavelmente popular e erudito, engraçado até ao ponto de matar de rir, com clarões de lucidez escandalosa que pareçam loucura à primeira vista. Sem folclorismos veados. Profundamente cristão sob uma aparência enganosamente obscena. Aristóteles no programa do Alborghetti. Cogito ergo Mussum. Isso há de acontecer, se Deus quiser”.
E houve o dia em que Olavo – esse mesmo senhor que adorava contar piadas e gargalhar com suas próprias histórias – resolveu jantar no Restaurante Sem Nome, no mercado central de Boston, depois de fazer uma palestra em Harvard. Esse pequeno restaurante de frutos do mar era comandado por um velhinho grego que era ao mesmo tempo dono, cozinheiro e garçom do estabelecimento. Quando Olavo chegou, acompanhado de Roxane e mais alguns amigos, havia uma equipe de filmagem no restaurante: era a equipe da cineasta Petra Costa, que gravava um documentário. O velhinho, curioso com a movimentação, perguntou quem era aquele cliente. Responderam-lhe:
“Esse é Olavo de Carvalho, filósofo e escritor brasileiro”.
Então, o velhinho começou a chorar e abraçou Olavo. Algum tempo antes, o velhinho encontrara um texto de Olavo – “Apeirokalia” – traduzido para o inglês na internet. Gostara tanto do texto que o dera ao filho, um jovem que havia se afastado de Deus. Graças a essa leitura, o filho do velhinho grego voltou à Igreja.
É uma pena que essa cena não tenha entrado no filme da Petra Costa.
Muito se fala do Olavo como analista político e crítico cultural. De fato, ele foi grande nessas duas áreas. Seus escritos e aulas estão repletos de previsões acertadas e prognósticos confirmados pelo tempo. Mas, como seu aluno e amigo, digo que a maior contribuição de Olavo está em seus estudos e reflexões sobre a imortalidade, o perdão e o milagre. Não foi apenas o filho do velhinho grego que Olavo fez voltar para Deus. Foram milhares de pessoas, e essas milhares de pessoas já estão se multiplicando em milhões.
Foi por isso que naquela manhã, Lacombe, eu me levantei e escrevi: “Obrigado, Olavo, por salvar a minha vida”.
Estou escrevendo até hoje.
FONTE: O cruzeiro







