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Juliano Cazarré, o homem que ninguém cancela

Em entrevista exclusiva a O Cruzeiro, o ator fala sobre fé, o evento O Farol e a Forja e a alegria de ser católico e pai de família em tempos de guerra cultural.

Hoje é domingo, a grama é verde, o céu é azul, um homem é um homem, uma mulher é uma mulher, a família é fundamental e Deus é bom. Por insistir em defender essas verdades autoevidentes, o ator e influenciador católico Juliano Cazarré tem enfrentado algumas ondas de cancelamento. A última delas aconteceu agora, quando alguns colegas do meio artístico – uma barulhenta minoria, na verdade – atacaram Cazarré por lançar o evento O Farol e a Forja, formação católica destinada exclusivamente a homens, com foco na vida familiar, na vida profissional e na vida espiritual.

No entanto, o que pretendia ser um cerco acabou se tornando uma libertação. Enquanto as redes sociais ferviam em ataques coordenados, o público respondia no sentido inverso: o evento multiplicou seus inscritos em progressão geométrica, e as mensagens de apoio soterraram os insultos. Cazarré ganhou 600 mil seguidores em dois dias, atingindo 4,1 milhões no Instagram. Para o intérprete que já deu vida a heróis rústicos e tipos inesquecíveis da nossa teledramaturgia, o papel mais desafiador tem sido o da vida real: o de um pai de seis filhos que decidiu não baixar a cabeça para a ditadura woke.

Nesta entrevista para O Cruzeiro, Cazarré abre o coração com a mesma franqueza com que reza. Fala da infância literária em Brasília, da dor física que antecedeu sua conversão, do milagre cotidiano que envolve sua filha Maria Guilhermina e da paz de espírito de quem, no centro de uma guerra cultural, descobriu que a maior rebeldia hoje em dia é, simplesmente, ser um homem de fé.

Briguet: Como foi essa semana de cancelamento, Juliano?

Juliano Cazarré: Começou legal, porque na sexta-feira passada eu fui a Brasília para participar de um encontro de pais e filhos, outra vez um encontro só para homens, pais e filhos adolescentes, um projeto com o qual eu pretendo me associar em breve. Chama-se The Odyssey e simula um rito de passagem entre pais e filhos. É um evento para criar vínculos, para dar oportunidade de perdoar as falhas que todos os pais têm com os filhos, que todos os filhos têm com os pais. Então já começou muito bacana, houve esse evento e então nós fomos passar alguns dias na Chapada dos Veadeiros. É bonito demais. Eu vou pra Chapada já desde os anos 1990. Nos anos 2000, quando eu estava na universidade, eu fui várias vezes. Sempre que a UnB entrava em greve – e a UnB entrava em greve toda hora – eu dava um pulo na Chapada. Costumava ir para acampar. A gente acampava num camping lá que não tinha nem chuveiro: banho era no rio. Hoje em dia a Chapada foi descoberta pelo pessoal de São Paulo, pela turma da moda, pelos descolados. Então a Chapada ganhou muitos investimentos. Tem pousadas excelentes hoje em dia por lá. Minha esposa chegou a Brasília na segunda-feira, na terça a gente foi para a Chapada. Na quinta-feira, eu parei com a Letícia numa farmácia, ela desceu para comprar alguma coisa. Enquanto estava esperando a Letícia, abri meu Instagram e vi que eu estava sendo cancelado de novo.

Briguet: Isso já havia acontecido antes?

Cazarré: Eu já fui cancelado algumas vezes… Todas relacionadas com esse tema da masculinidade. A primeira vez eu botei um vídeo de um gorila protegendo a sua família numa estrada e disse que a masculinidade não era uma construção social, coisa nenhuma. Que ela está gravada em alguma potência muito mais profunda da nossa alma ali, porque até um gorila é capaz de saber qual é o papel dele na família – que é proteger. Pronto, bastou para eu ser cancelado a primeira vez. E toda vez que acontece de eu falar que o papel do pai é diferente do papel da mãe, que meninos precisam de pai, que meninos sem pai têm mais chance de abandonar a escola, não terminar a faculdade, ser preso, cair na criminalidade – toda vez, eu sou cancelado de novo. Isso é absurdo. É muito louco. Desta vez não foi diferente. Eu acho que essa galera deve ter algum grupo de Whatsapp em que eles se comunicam e falam:

Nossa, vocês viram? O Cazarré vai fazer um evento de homens. A gente tem que ir lá cancelar o cara.

Aí eles foram lá, me cancelaram – e o evento explodiu. Desde que me cancelaram, meu Instagram já ganhou 600 mil seguidores. O evento tinha 500 inscritos; da última vez que eu vi hoje de manhã, a gente tinha passado de 10 mil. Ou seja, 20 vezes mais inscritos no evento. Mas desta vez eu fiquei tranquilo. Primeiro, porque o couro vai ficando mais grosso mesmo. Depois, porque eu vi o absurdo das acusações, eram muito ridículas. A enxurrada de apoios é muito maior do que o número de acusações. Acho que essa turma do cancelamento está em desespero, né? Existe uma guerra cultural, e eles sabem que estão perdendo. Os jovens estão se convertendo, estão voltando ao catolicismo, estão deixando de beber, rejeitam essa história de ficar com todo mundo, buscando compromissos mais sérios. Então, eu acho que a turma do cancelamento está desesperada. Eles estão vendo que anos e anos de muito gasto e empenho que eles investiram nessa guerra cultural não estão rendendo frutos.

Briguet: Como é que você concebeu O Farol e a Forja?

Cazarré: Fui fazer um trabalho com a UniÍtalo, uma universidade católica em São Paulo. A UniÍtalo tem a primeira paróquia de São Carlo Acutis no mundo, Jesus Eucarístico está sempre lá, eles têm missas diárias. Fui fazer um trabalho para eles. Gravei um curso, uma catequese de leigo para leigo, com instruções básicas ali para quem está chegando à Igreja Católica. Mas, além desse curso, a universidade queria fazer mais coisas comigo. Uma delas é o Summit. Eu disse que queria fazer um encontro para homens. Juro que foi com a melhor das boas intenções! Em nenhum momento eu pensei em lacrar ou incomodar, mas por ser um assunto que me é caro. Eu quero que mais homens sejam bons pais. Eu quero mais homens contando história para o filho na hora de dormir. Eu quero mais homens valorizando o matrimônio como um sacramento feito perante Deus, não uma coisa que não tem valor nenhum. Eu quero mais homens voltando com pressa do trabalho e chegando em casa para pegar as crianças ainda acordadas, para dar um beijo na mulher. Quis fazer um evento para a gente se fortalecer mesmo. Para a gente falar sobre o que está acontecendo na sociedade: a desvalorização do casamento, o enfraquecimento da figura masculina, essa mentira de que toda autoridade é uma forma de opressão. Dividi o evento em três dias, porque eu e minha esposa sempre dizemos que a vida tem três pilares fundamentais: vida profissional, vida pessoal e vida espiritual.

Briguet: Por que esse título?

Cazarré: Tem muitos homens precisando de um farol, de um norte, para não se arrebentar nas pedras. Daí vem o farol. E a forja, porque a gente precisa formar homens mais fortes. A gente sabe que a forja tempera o aço. Além disso, Forja é o nome de um livro de São Josemaría Escrivá, um santo muito importante para esses nossos tempos, que fala para a gente ser santo na vida cotidiana, no trabalho, no casamento.

Briguet: A atriz e cantora Elisa Lucinda disse que que você vai “na contramão dos avanços do mundo”. É isso mesmo?

Cazarré: Elisa Lucinda é uma pessoa talentosa. Porém, o progressista acredita que qualquer mudança é boa. Só que não é assim. A gente sabe que o mundo foi construído em cima de valores, muitos deles inultrapassáveis. A família é um bem. A fé é um bem. A lei natural é um bem. O mundo, porém, vai avançando – e esse avanço muitas vezes é um retorno à barbárie. Muitos “avanços” do mundo são ataques contra esses valores fundamentais e eternos. Contra a figura de Deus como Pai. Contra a família.

Briguet: De que maneira você recebeu as manifestações de apoio nos últimos dias?

Juliano Cazarré: Às vezes, lendo os comentários, eu fico com o olho cheio d’água de ver tanta gente falando: “É isso mesmo!”, “Continua!”, “A gente precisa disso!”. Muita gente que não teve pai escreveu falando: “Cara, a gente precisa de pais melhores”. Muita gente que teve o pai que abandonou a mãe, pai que traía, pai que bebia vem dizer: “A gente precisa resgatar a nossa posição dentro de casa”. E a posição dos homens é irmanada com a das mulheres. É ombro a ombro, o marido e a mulher levando a família para frente. O volume de apoio que eu recebi é uma coisa que emociona. A gente vê que a maioria das pessoas pensa assim. Porque eu não estou defendendo nada radical, mas o bom senso. Eu tive um pai legal, eu tive um avô legal, eu quero isso para as pessoas.

Briguet: Seu pai é uma inspiração para você?

Juliano Cazarré: Meu pai é uma figura muito importante para mim, um amigão. Muitas das minhas melhores lembranças são justamente o meu pai chegando tarde do trabalho, indo lá na nossa cama para contar uma história. Às vezes ele inventava de improviso, criou um herói politicamente incorreto, que era o Salim. Meu irmão e eu dormíamos em um beliche, rindo das histórias. Meu pai é um cara agnóstico, mas ensinou a gente a rezar o pai-nosso e a ave-maria ali na cama também. A literatura é um ponto de contato da nossa família.

Briguet: Fale sobre a sua conversão para os leitores de O Cruzeiro.

Juliano Cazarré: Há dez anos, em 2016, Letícia e eu passávamos por um momento difícil. A gente vinha já flertando com o ateísmo. Tivemos uma crise no casamento, totalmente por minha culpa. Quase nos separamos, e eu fiquei em casa sozinho. Uma noite, eu sentia uma tristeza muito grande, a ponto daquilo se tornar uma dor física. A impressão que eu tinha era de o meu coração estar rasgando. Achei que eu ia infartar. Liguei para um amigo surfista e, quando ele chegou, perguntou: “Juliano, você se arrepende dos seus pecados?”. Eu respondi: “Sim”. Então ele perguntou: “Juliano, você aceita Jesus como seu salvador?”. Eu falei: “Sim”. Então, ele disse: “Vamos rezar”. Foi um ato de contrição muito forte. Eu realmente entendi, vi todos os meus erros, me arrependi deles, e a gente ficou rezando muito tempo. Eu senti que Deus estava comigo e que Ele seguia me amando, apesar de eu ser o imbecil que eu sou. Ao me sentir perdoado, eu vi que eu podia ser feliz de novo, como quando eu era uma criança.

Briguet: E como se deu sua volta à Igreja Católica?

Juliano Cazarré: Primeiro eu voltei a rezar. Passou-se algum tempo e um dia um jornalista me faz a pergunta:

Qual o papel que você nunca interpretou e gostaria de interpretar?

E eu respondi, sem pensar:

Quero fazer Jesus na Paixão de Cristo em Nova Jerusalém

Na verdade, eu nem lembrava direito da Paixão de Cristo. Duas semanas depois me ligou o produtor e falou: “Você quer fazer Jesus?”. Para fazer o papel, voltei a ler os quatro Evangelhos. No fim do ano, em Brasília, escutei tocar o sino de uma igreja. Aquele sino tocou dentro de mim. Olhei para minha esposa e disse: “Que saudade de ir a uma missa!”. Ela falou: “Vai”. Quando cheguei ao Rio, fui à missa e entendi tudo, me senti em casa. Voltei a frequentar sozinho e, dois meses depois, minha esposa falou: “Eu vou também”. Aí pronto: foi ela, foi a família, a gente se casou na Igreja, ela fez a primeira comunhão.

Briguet: Quantos filhos vocês tinham nessa época?

Juliano Cazarré: Dois. Depois vieram mais quatro. A Maria Guilhermina, que eu estou vendo aqui no jardim, nasceu com uma anomalia grave no coração e passou por três cirurgias. Ela está bem hoje em dia, é uma menina que reage a tudo, superatenta, ri quando os irmãos entram no quarto. O mais bonito é que muita gente voltou a rezar por causa da Guilhermina. Quando perguntam a Jesus se o cego havia nascido assim por culpa dele ou dos pais, Jesus diz que era para maior glória de Deus. Então, a Guilhermina trouxe muitas almas pra Deus.

Briguet: Como você compatibiliza a sua fé e a sua carreira profissional?

Juliano Cazarré: Eu rezo muito indo para o trabalho. Digo: “Não tenho nenhum Baco, nenhum Dionísio, só tenho Jesus. Se o Senhor não me ajudar, eu não vou conseguir”. Estou sempre em diálogo com Ele. Mas, para ser justo, Paulo, eu preciso dizer: não é verdade que a classe artística e a Globo me cancelaram. Foram uns poucos indivíduos militantes. A Globo nunca me falou uma palavra, minha relação com eles é maravilhosa, acabei de renovar contrato. O que eu posso te falar é o seguinte: lá dentro, o número de conversões é cada vez maior. Cada vez mais tem artista cristão.

Briguet: A sua atuação como Jorginho, na novela Três Graças, foi bastante elogiada.

Juliano Cazarré: Em Três Graças, Deus me mandou o Jorginho, um ex-traficante convertido que continuava falando com a linguagem da periferia. Eu podia mostrar que o cristão é um cara normal, derrubar essa ideia do católico como um cara careta e sisudo. No fim da novela, o personagem morria, só que eu quis fazer o personagem morrendo em paz. Ele olhava para o céu, caía no chão e dizia:

O Senhor é lindo. Obrigado por tudo!

Aí ele sorria, vendo Jesus na hora da morte. Deus é bom, Paulo.

FONTE: O cruzeiro

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