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Fraude imigratória: o legado amargo da Legacy

Brasileiros vinculados à empresa Legacy Imigra foram presos em operação na Flórida. Quadrilha se aproveitava do estado de vulnerabilidade de imigrantes.

Autoridades do Condado de Orange, na Flórida, acabam de desmantelar uma operação de fraude imigratória investigada durante meses. O xerife John Mina, em entrevista coletiva na última quarta-feira (22), descreveu o caso como um dos maiores já vistos na região. O fundador da Legacy Imigra, Vagner Soares de Almeida, sua mulher, Juliana Colucci, e associados como Ronaldo de Campos e Lucas Felipe Trindade Silva foram presos. Eles respondem por racketeering (associação criminosa), fraude organizada, extorsão e exercício ilegal da advocacia. Segundo as autoridades, o grupo movimentou mais de US$ 20 milhões em poucos anos, atuando principalmente junto a famílias brasileiras em vários estados.

A Legacy Imigra se apresentava como uma agência de imigração completa, com “advogados” que auxiliavam indocumentados a obter status legal nos Estados Unidos. Na prática, de acordo com a investigação, não havia nenhum advogado licenciado envolvido. Os valores cobrados variavam de US$ 2.500 a US$ 26 mil por cliente. O serviço principal consistia em pedidos de asilo político e autorizações de trabalho. As autoridades afirmam que a maioria das aplicações foi preenchida de forma inadequada ou sem mérito, o que não resultou em status legal para a grande maioria dos clientes.

O modus operandi envolvia a venda de pedidos de asilo político. O processo de asilo é regulado pela Lei de Refugiados de 1980 e pela seção 208 da Lei de Imigração e Nacionalidade (INA). Trata-se de um dos poucos mecanismos que permite ao estrangeiro solicitar proteção independentemente da situação migratória anterior – até para quem entrou ilegalmente ou ultrapassou o prazo do visto. A lei parte do pressuposto de que a necessidade humanitária pode explicar a irregularidade inicial. É uma porta humanitária.

Enquanto o pedido permanece pendente, a deportação é suspensa. O processo permite ainda a solicitação de autorização de trabalho (EAD) e do Número de Seguro Social (SSN). Com o SSN, o solicitante pode construir histórico de crédito, financiar veículos, alugar imóveis e realizar outras operações financeiras. Na prática, muitos clientes obtiveram esses benefícios temporários. No entanto, pedidos sem mérito são negados. Quando o USCIS ou o juiz de imigração identifica misrepresentation (falsidade material), aplica-se a seção 212(a)(6)(C) da INA, que barra o imigrante de qualquer benefício futuro – visto, green card ou cidadania – por toda a vida.

Esse caso não é isolado. A imigração americana registra, historicamente, alto volume de fraudes, muitas vezes ligadas à vulnerabilidade dos solicitantes: dificuldade com o idioma inglês, falta de informação e o alto valor emocional e financeiro envolvido. De acordo com a American Immigration Lawyers Association (AILA), desde meados de 2025, houve um aumento significativo de golpes sofisticados, especialmente via anúncios pagos no Facebook e WhatsApp. A própria AILA e organizações como Catholic Charities relatam que cerca de um terço de suas agências espalhadas pelo país já enfrentaram golpistas usando nomes e logotipos falsos. No contexto de maior temor de deportações – pesquisa KFF/New York Times de 2025 mostrou que 75% dos imigrantes indocumentados e 41% dos imigrantes em geral temem detenção ou remoção para si ou parentes –, a demanda por “soluções rápidas” disparou. A Legacy Imigra atuava exatamente nesse cenário, explorando a urgência e ampliando a demanda por serviços que prometiam proteção imediata.

O ponto central é o seguinte: nos Estados Unidos, consultoria e representação em assuntos imigratórios constituem advocacia. Apenas advogados licenciados por um estado americano – e, preferencialmente, membros da American Immigration Lawyers Association (AILA) – podem prestar esse serviço, representar clientes perante o USCIS, ICE ou tribunais de imigração. Consultorias que operam sem licença cometem o crime de unauthorized practice of law (exercício ilegal da advocacia). Paralegais podem auxiliar, mas não dar consultoria legal, preencher formulários com estratégia ou representar clientes em audiências, devendo sempre atuar sob supervisão direta de advogado licenciado.

O caso da Legacy Imigra serve como um alerta para a comunidade brasileira. O caminho legal exige verificação cautelosa. Antes de contratar qualquer serviço, exija a licença do advogado (basta consultar o site do bar estadual) e confirme o número de membro da AILA. Desconfie de promessas de resultados rápidos ou garantidos. No fim das contas, o verdadeiro legado que construímos para nossos filhos se baseia em paciência, honestidade e respeito às regras do sistema. O resto é voo de galinha – instável e que nunca chega alto.

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