Quando as eleições curam o que a medicina não consegue. Uma análise sobre a patologia do poder e o vírus quadrienal que devolve a memória a poderosos de Brasília.
Embora este escriba não ostente o título de médico, a lida advocatícia me impôs o fardo de representar inúmeros cidadãos cujos entes familiares mais próximos foram acometidos pelo Alzheimer. Em incontáveis ações de interdição, testemunhei os efeitos devastadores dessa enfermidade neurodegenerativa, progressiva e irreversível, que a ciência costuma dividir em tipos clínicos de natureza inflamatória, vascular ou traumática.
Aprendi que a doença se manifesta em fases: começa com pequenos esquecimentos e alterações leves de personalidade, evoluindo para a dificuldade em realizar tarefas diárias e, no estágio grave, culmina na perda da fala e da autonomia. Contudo, o que a medicina tradicional ainda não catalogou é a variante brasiliense da doença: o “Alzheimer Político Seletivo”… É uma condição que, ao contrário da versão biológica, parece ser altamente contagiosa e, curiosamente, reversível conforme o calendário eleitoral.
Quanto aos vírus, meu conhecimento advém da traumática experiência pandêmica, na qual lutamos não apenas contra as mutações do SARS-CoV-2, mas contra a mutação do Estado Democrático de Direito para um “Estado Totalitário Sem Direito”. Mas nada me preparou para a mutação atual, na qual a perda de memória recente parece atingir o ápice da nossa pirâmide jurídica.
Recentemente, o país assistiu, entre o espanto e o deboche, às declarações do ministro Gilmar Mendes. Com a clara intenção de mitigar as críticas de Romeu Zema aos abusos perpetrados pelo Supremo Tribunal Federal nos últimos sete anos, o magistrado optou por ridicularizar o sotaque mineiro do ex-governador, como se o “uai” e o “trem” fossem fundamentos jurídicos para a desqualificação de um argumento totalmente pertinente e relevante.
Ocorre que, conforme precedentes do próprio STF, tais falas estão umbilicalmente ligadas ao que chamamos no Direito de animus diffamandi: a intenção deliberada de depreciar a imagem alheia. Para reforçar que minha memória segue intacta, repito a frase predileta do ministro em suas sessões plenárias: “É importante que se diga” – ele sempre fala isso – que não há dúvidas sobre a intenção de macular a reputação de Zema.
Vejam, não foi uma crítica institucional, mas um ataque ad hominem rasteiro partindo de um ministro da Suprema Corte. A ironia atinge níveis estratosféricos quando lembramos que esse mesmo animus diffamandi foi o pilar da Portaria GP 69/19, que instaurou o famigerado Inquérito das Fake News.
Naquela época, a “honorabilidade” dos membros da Corte era sagrada. Hoje, o mesmo ministro que ajudou a equiparar a homofobia ao racismo – numa ação “legislatva” –utiliza a orientação sexual como instrumento de chacota pública contra seus desafetos.
Não obstante, se o ministro parece sofrer de uma fase moderada da doença – apresentando dificuldades em realizar tarefas simples, como comportar-se como juiz, e não como ator político –, o fenômeno da cura repentina em outras figuras é ainda mais fascinante.
O senador Alessandro Vieira, por exemplo, que outrora legitimou o famigerado Inquérito das Fake News – e, indo além, foi o autor do PL 2.630/2020, o PL da Censura –, parece ter recuperado a lucidez. Após anos apoiando o arbítrio da Suprema Corte, agora, surpreendentemente, denuncia a “lógica da intimidação” em Brasília. É um milagre da ciência política – ou das eleições, talvez…
A Revista Veja, a Folha de S.Paulo, o Estadão e até O Antagonista, quem diria, também parecem ter superado seu “Alzheimer editorial”. Após anos de silêncio obsequioso desde que o Inquérito das Fake News surgiu como “providência” contra investigações da Receita Federal sobre o patrimônio do ministro, O Antagonista voltou a descobrir seu pilar, passando a tecer críticas, ainda tímidas, mas boas e necessárias, ao Supremo, tendo como foco os escândalos envolvendo o Banco Master.
Já a cúpula da esquerda, representada por figuras como Randolfe Rodrigues, permanece em estado vegetativo de memória. Randolfe, que em 2019 ajuizou a ADPF 572 contra o inquérito, em 2020, desistiu da ação e mergulhou no apoio aos “supremos” ao que antes chamava de arbítrio.
E, se você falar que o Supremo está junto com o governo Lula, será investigado. E se afirmar que todos estão envolvidos no caso do Banco Master, meu amigo, você triplicará as chances de a Policia Federal araponguense aparecer de surpresa na porta da sua casa às seis da manhã com um mandado de busca e apreensão, além de bloquear suas contas bancárias, cancelar seu passaporte e fechar todas as suas redes sociais para preservar a “democracia” liderada pela “Suprema Várzea”.
Até mesmo André Mendonça, o “terrivelmente evangélico”, oscila em sua convalescença. Entre condenações severas em 2023 e absolvições surpreendentes em abril de 2025, o magistrado que por vezes sorri com Moraes e Dino no Plenário contando “causos” de sua vida matrimonial parece viver em um eterno looping de redescobrimento jurídico.
E não se enganem: Romeu Zema não é o herói desta crônica. Não esqueçamos que o mesmo Zema, hoje vítima dos arbítrios, foi o entusiasta da insanidade sanitária, utilizando a força policial para fiscalizar máscaras e restringir liberdades fundamentais, condutas que hoje se provaram inócuas, exageradas e até mesmo inúteis como a verdadeira ciência vem publicando dia após dia.
Enfim, não posso afirmar cientificamente que essa elite sofra de Alzheimer real, nem que Gilmar Mendes possua o toque da cura. Contudo, é inegável que a recuperação da memória e da dignidade institucional no Brasil tem ligação direta com um vírus muito peculiar, que só infecta o hospedeiro político de quatro em quatro anos.
Resta-nos a dúvida: o nome desse agente infeccioso é “eleições”, ou estamos apenas diante da colheita maldita de tudo o que foi plantado por essas mesmas figuras ao longo de décadas?
Bem, enquanto a ciência não decide, sigamos observando essa mutação do Estado de Direito, no qual a única certeza é que a memória é um acessório de luxo usado apenas quando combina com o figurino da vez para o eleitor desavisado.
Que Gilmar, digo, que Deus tenha misericórdia de todos nós.
FONTE: O cruzeiro







