Ao cumprir mandados de busca, nesta quinta-feira, contra Karina Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, os investigadores da Polícia Federal apreenderam um documento de quatro páginas em que empresária responsável pelo filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro, relata pressões que recebeu para delatar Flávio Bolsonaro. A informação foi divulgada pela Veja e confirmada pela equipe deste site.
Segundo o documento, Karina foi procurada por três pessoas em momentos distintos. Entre elas estão o empresário Fernando Sarney, um pastor evangélico conhecido da produtora e um jornalista. De acordo com o relato, os três teriam mencionado a possibilidade de uma colaboração premiada durante o período em que a produtora passou a ser alvo de apurações sobre possíveis irregularidades no financiamento do filme.
O documento foi apresentado como uma declaração juramentada e registrada em cartório, como confirmado pela equipe deste site.
Karina afirma que Fernando Sarney disse ter “grande proximidade com o ministro (Flávio Dino)” e ofereceu apoio jurídico caso ela aceitasse fazer uma delação.
“No dia 20 de maio de 2026, fui procurada pelo Dr. Fernando Sarney. Não o atendi naquela oportunidade, tendo o contato efetivamente ocorrido apenas no dia 22 de maio de 2026, às 9h07. Durante a conversa, o Dr. Fernando Sarney ofereceu-me apoio jurídico e afirmou possuir grande proximidade com o Ministro Flávio Dino. Na mesma ocasião, declarou que poderia me apoiar caso eu tivesse interesse em realizar uma ‘delação premiada’”, diz o documento.
A empresária afirma que não aceitou a proposta e que pretendia esclarecer os fatos por meio da documentação disponível e do direito de defesa.
“Diante da abordagem, não manifestei interesse em realizar colaboração premiada, pois não identificava — e continuo não identificando — qualquer razão para adotar tal medida. Minha posição sempre foi a de esclarecer os fatos mediante a apresentação dos documentos pertinentes e o regular exercício do direito de defesa”, segue Karina.
Ela também ressalvou que a suposta proximidade de Fernando Sarney com Dino foi mencionada apenas pelo próprio empresário. Karina diz não ter presenciado qualquer contato entre os dois.
“Não presenciei qualquer conversa entre ambos e não possuo elementos próprios que me permitam afirmar que o Ministro tivesse conhecimento, participação ou envolvimento nesse contato.”
O segundo contato ocorreu em 27 de agosto, segundo a empresária. Karina afirma que recebeu uma ligação de um pastor e amigo de longa data, que teria dito manter proximidade com integrantes do governo federal e ministros do Supremo Tribunal Federal.
“Relatou-me que teria conversado com pessoas ligadas a essas autoridades e que lhe teriam solicitado que entrasse em contato comigo para transmitir a possibilidade de realização de uma ‘delação premiada’, apresentada, segundo suas palavras, como uma forma de me retirar do risco de uma possível ‘complicação’. Segundo o interlocutor, se eu fizesse uma ‘delação premiada’, nada ocorreria comigo e eu não seria alvo de nenhuma operação policial”, segue Karina.
O terceiro episódio, de acordo com o documento, envolveu um jornalista que já havia questionado Karina sobre uma possível delação. Na nova conversa, ele teria dito que ela estaria “servindo de bucha de canhão para o candidato” e associado a recusa em colaborar a possíveis medidas judiciais.
Karina afirma que a sequência das abordagens provocou preocupação sobre uma eventual interferência externa na investigação.
“Segundo o contexto que me foi apresentado por tais interlocutores, se eu não fizesse uma delação premiada, assumindo que alguma irregularidade teria ocorrido na produção do filme, o que seria equivalente a dizer mentiras, eu poderia ser alvo de operações policiais contra a minha pessoa.”
Na declaração, a empresária afirma ainda que não cometeu irregularidades e que não fez acordo de colaboração. Por isso, diz temer que eventual operação contra ela pudesse ter motivação política.
“Como não cometi nenhuma irregularidade e como não fiz nenhuma delação premiada, tenho receio de que alguma operação policial possa ser realizada contra a minha pessoa por retaliação política e não porque cometi algum ilícito.”
A PF apreendeu o documento durante a operação que teve Karina Gama entre os alvos. A investigação apura possíveis irregularidades envolvendo recursos destinados à produção de Dark Horse, filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O relato de Karina, porém, não comprova que as pessoas citadas tenham agido a mando de autoridades ou que tenha existido qualquer interferência na investigação. A própria empresária registra no documento que as informações sobre eventuais vínculos com integrantes do governo foram repassadas pelos interlocutores.







